A marcha dos “playboys” (entre aspas)

Da esquerda para a direita: Pazolini, Arnaldinho e Ricardo Ferraço

O título da matéria não é depreciativo como parece. Trata-se de uma característica peculiar da ciência política inerente aos personagens eleitorais das eleições ao Governo do Espírito Santo em 2026.

O escritor francês Roger-Gégard Schwartzenberg define, em sua obra “Estado Espetáculo”, quatro arquétipos que espelham imagens políticas, as quais teatralizam o jogo eleitoral há algumas décadas. São estes os arquétipos: herói, pai/mãe, homem comum e líder charmoso.

Este último, acredito, é o retrato até aqui do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), do prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), e do vice-governador Ricardo Ferraço (MDB). Explico passo a passo. Antes, registro, todos os três se colocam como pré-candidatos ao Governo do ES, embora só se tenha certeza de que Ricardo será mesmo candidato.

Muitos se lembram do debate de 2020 nas eleições municipais canela-verde entre o ex-prefeito Max Filho e Arnaldinho. O primeiro, no calor das lacrações, chamou o segundo de candidato Red Bull. Foi ótima sacada, mas o atual prefeito de Vila Velha tirou de letra e ainda capitalizou com a ideia.

O Red Bull deu energia e Arnaldinho, até hoje, segue correndo pela cidade. Com a imagem sempre impecável, ele combina o perfil de gestor ao de influencer – com direito ao quadro "Recebidos do Arnaldinho”, no qual o prefeito abre e mostra diversos produtos made in Vila Velha.

Eu não pretendia desequilibrar nos exemplos, mas o caso é muito recente para não citar: todo mundo viu, até o ex-deputado federal Felipe Rigoni, como ele mesmo brincou, o episódio do galanteador Pazolini no Piuaí. No Brasil, sabemos, esses eventos podem até arranhar a imagem do gestor, mas o prejuízo cai mesmo – de forma injusta e implacável - no colo das mulheres.

O prefeito de Vitória também dá seus shows, como na ocasião em que subiu no palco de óculos escuros para “tocar” teclado ao lado de profissionais de limpeza. Aliás, a própria imagem de Arnaldinho e Pazolini no Carnaval de Vitória, clique que deve entrar para a história da política capixaba, ostenta os dois líderes charmosos em estado de graça.

Já Ricardo Ferraço faz parte da alta sociedade capixaba, é conhecido por construir pontes com o empresariado e transita naturalmente (ou quase naturalmente) entre dois mundos: pode tanto tomar um vinho caríssimo numa noite de inverno como beber uma coca-cola zero debaixo do sol de verão. Também não é segredo que sua trajetória política tenha sido herdada do pai, embora eles carreguem personalidades distintas.

O vice-governador cresceu pegando onda nas praias capixabas, assim como Arnaldinho se arrisca nos mares de Vila Velha. A marcha desses três personagens, portanto, apresenta certa semelhança. A diferença mais transparente, claro, é que a dupla mais nova vende o novo Espírito Santo, ao passo que Ricardo defende maturidade para liderar o legado deixado por Paulo Hartung e Renato Casagrande.

Momento capixaba

O perfil delineado para esses três personagens é possível porque o Espírito Santo vive um momento de estabilidade: econômica e social. Tudo parece correr bem. É o Brasil que dá certo, como sublinha Ferraço; “um mar calmo com horizontes serenos”, como descreve Schwartzenberg. O capixaba tem orgulho do Estado, de suas belezas, da qualidade de vida, das praias.

O grande desafio que se apresenta, no ES e no Brasil, é o da segurança pública. As pessoas vivem com medo. Medo de andar na rua à noite, de olhar o celular na calçada. Medo de tirar o carro da garagem ou de parar nos sinais após determinada hora. É muito provável que, nesse contexto, a personificação do herói seja trazida à tona.

Equilíbrio

Muita gente pode até apontar favoritismo a algum desses três players na corrida eleitoral. Mas o fato é que não há. A juventude de Paozlini e Arnaldinho, além de suas gestões bem avaliadas nas respectivas cidades, são ativos impactantes. Hoje, na performance enérgica do dia a dia, eles se saem melhor que Ricardo.

O vice-governador, entretanto, vai se tornar governador do Espírito Santo no dia 02 de abril, já que Casagrande precisa, por lei, sair do cargo para poder concorrer ao Senado. Ter a máquina na mão não é pouco. Sem contar que Ferraço conta com o apoio do próprio Renato Casagrande, do prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio, e do ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal, três fenômenos eleitorais. Além da superpoderosa federação União Progressista.

E Helder Salomão?

O momento capixaba é bom, mas obviamente não é perfeito. E um dos principais gargalos se dá exatamente em uma pauta valiosa para a esquerda - portanto, para o também pré-candidato ao Governo do Espírito Santo Helder Salomão (PT).   

O capixaba tem orgulho do ES, como registramos. Mas o Estado não é feito para todos. Os restaurantes lindos, as belezas das montanhas, os festivais de jazz, entre outros ativos, são consumidos de forma restrita, pela população mais privilegiada.

O trabalhador e a trabalhadora que acordam às 5 horas da manhã todos os dias para pegar ônibus – e ainda correm o risco de serem assaltados - não têm acesso de verdade à cultura da cidade. Veja o exemplo da contradição: títulos de jornais exibem que a capital Vitória “é o metro quadrado mais caro e a melhor cidade para se viver no Brasil”. Ora, nem todo mundo consegue pagar ingresso para a cidade dos sonhos.

Ao mesmo tempo, o ES segue o atual padrão brasileiro, aquele apontado por Felipe Nunes no livro “Brasil no Espelho”, de ter cidadãos mais conservadores e à direita. No âmbito majoritário, se trata de um desafio significativo para a esquerda.  

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