Além do marketing: a penitência de Nikolas e o projeto de poder

A marcha de Minas a Brasília liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL) foi até evitada pela imprensa no primeiro momento, mas amplamente repercutida no ambiente digital, como era de se esperar - comparável, no todo, ao famoso vídeo do pix.

Funcionou porque o jovem ambicioso tem alta capacidade de mobilização; ou mesmo, como apontaram muitos analistas, por ter escolhido um momento de vácuo das grandes pautas - Congresso em recesso -, com militância disponível para consumir uma boa história.

O jovem não deixou por menos. Foram 240 quilômetros de Paracatu (MG) à Capital Federal, com direito a raios, trovões, cantadas protestantes, orações e o apelo do herói messiânico: “Acorda, Brasil”, repetiu Nikolas dezenas de vezes, ecoando a “realidade” projetada pela direita brasileira nos últimos anos.

A imprensa evitou a cobertura no início porque a narrativa oficial publicizava um ato com premissa antidemocrática, embora falseasse o lema “justiça e liberdade”. A marcha, afinal, fora em defesa dos presos - em especial do ex-presidente Jair Bolsonaro - ligados à tentativa de golpe no 8 de janeiro de 2023.

Como o prodígio Nikolas foi bem‑sucedido, virou case de marketing. Pelo menos é assim que muitos dos meus colegas de profissão têm tratado tudo que viraliza. É a síndrome do marqueteiro imparcial – algo que nunca existiu no ramo da comunicação –, o que impede a maioria de conversar de forma crítica sobre política. Teve um professor de marketing que “proibiu” os “emocionados” de acompanharem sua análise em carrossel, mas, no slide seguinte, muito emocionado chamou a peregrinação do deputado federal de “histórica”.

É claro que o marketing anda junto em cada passo - nada daria certo sem ele. Mas daí resumir tudo a estratégia de comunicação é superestimar demais nosso passe. E um pouco simplista também.

A marcha foi a “penitência” de Nikolas para se colocar como um missionário moderno e liderar um projeto de poder. O deputado, por óbvio, sabia que ninguém seria solto por causa dos 240 quilômetros entre Paracatu e Brasília. Ele mesmo, no final, confessou em vídeo ter sido “apenas” um gesto simbólico: “Fiz a caminhada para declarar de quem é o poder. E esse poder é de Deus”.

A missão, cujo mensageiro jura ser pela obediência divina, lhe rende autoridade espiritual diante da base, consolida seus negócios de formação para cristãos - a empresa Destra -, aumenta seu poder político interno (Michelle já o chamou de filho 06 de Bolsonaro), ofusca pautas negativas e o ratifica na fila para concorrer à Presidência no futuro - talvez breve, se a Constituição mudar.

Se os missionários vindos dos Estados Unidos chegaram ao Brasil, no século XIX, para disseminar a fé evangélica inspirada no puritanismo de João Calvino, trazendo na mala uma moral de costumes rígida e pretensa superioridade sobre a cultura popular brasileira, como descreve Magali Cunha, Nikolas se ampara num conceito bem mais brutal: a fantasia de “faxinar” as diferenças e dominar hegemonicamente, com a literalidade do velho testamento em uma mão e o celular na outra.

Junto a esse pano de fundo, há o discurso anti-establishment que contesta tudo o que não é espelho. O divergente para Nikolas é, por exemplo, a Constituição de 1988. O deputado lidera a construção e a consolidação, para além dos Bolsonaro, de um novo campo de afetos, um novo padrão cultural e uma nova visão de país - uma que não encontra abrigo nas atuais leis. Vem daí sua força mobilizadora: a passagem da dissonância cognitiva para uma nova realidade.

Portanto, há um peso conceitual, para o bem ou para o mal, avassalador nessa jornada do jovem mineiro. É claro que tudo isso não se reduz a “saiu da internet e foi para a rua”; ou mesmo “foi esperto por aproveitar um vácuo”; e ainda: “é especialista em dominar a atenção algorítmica”.

Há um movimento, de natureza dinâmica e agonística, em busca de poder. E a guerra só começou.

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