Os intocáveis?
Para o azar do ex-governador de Minas Gerais e pré-candidato à Presidência Romeu Zema (Novo), os intocáveis de Brasília neste momento, pelo menos no quesito intenções de voto, são o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o filho zero um do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio (PL).
Diante do cenário político nacional - ainda sem calcular o super-recente-bate-papo-amigável entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro -, os representantes atuais da polarização seguem como favoritos plenos na corrida presidencial.
É o que mostrou a rodada da pesquisa Genial/Quaest deste 13 de maio de 2026. No primeiro turno, Lula continua na liderança, com 37% das intenções de voto, ante 33% de Flávio. Ronaldo Caiado (PSD) e Zema aparecem com 4%, seguidos por Renan Santos (Missão), 2%, e Augusto Cury (Avante), Cabo Daciolo (Mobiliza) e Samara Martins (UP), todos com 1%.
Já no segundo turno há empate técnico entre os favoritos, desta vez com Lula numericamente à frente de Flávio: 42% contra 41%. O intuito deste texto, porém, não é confirmar o que já está em todos os jornais, mas provocar o debate abaixo.
Like dá voto?
A pergunta, já um tanto clichê, nunca teve resposta fácil. Dependendo do humor do analista, há sempre o risco de cair em uma resposta simplista - ou é isso, ou é aquilo -, algo perigoso para o processo de comunicação.
O histórico recente de Romeu Zema explica bem o ponto. Os marqueteiros do político criaram uma série batizada de "Os intocáveis" (por isso o título deste artigo), com fantoches que fazem referência - e pesadas críticas - aos figurões de Brasília, como os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
O primeiro togado, inclusive, já acostumado a reverberar polêmicas, caiu na pilha: reagiu, pediu a inclusão de Zema no inquérito das Fake News e tentou desqualificar o mineiro - inclusive zombando do sotaque interiorano do ex-governador. Foi o presente dos milhões... de métricas.
Só entre 20 e 27 de abril, por exemplo, Zema ganhou mais de um milhão de seguidores nas redes sociais, considerando Instagram (716 mil), TikTok (70 mil), YouTube (101 mil), X (28 mil) e Kwai (15,5 mil). No mesmo período, os conteúdos do político somaram 142 milhões de visualizações só no Instagram.
O resultado, obviamente, não é milagre. É trabalho consistente que encontrou uma janela viral e estava preparado para aproveitar o momento, bem como conectar a oportunidade ao arquétipo definido para Zema: o homem simples que quer acabar com os privilégios dos figurões do Planalto.
Mas nem tudo são flores...
Zema cresceu nas redes, mas não em intenções de voto. Na pesquisa divulgada pela Quaest, o ex-governador de Minas variou positivamente dentro da margem de erro: passou de 3% para 4%, apenas.
Portanto, o desempenho fenomenal não foi o suficiente para o interesse final do eleitor. A dicotomia Lula x Bolsonaro ainda é mais potente que qualquer visualização. E os dois, embora tenham caído numericamente no jogo digital, ainda lideram a popularidade nas redes.
Em abril, segundo o chamado Índice Datrix dos Presidenciáveis (IDP), Flávio teve um recuo de 14,4%, mas segue em primeiro, com 27,86 pontos. Lula apareceu na segunda posição, com 22,66 pontos, também em queda (3,8%). E Zema saltou incríveis 56,6%, atingindo 21,13 pontos.
Projeção nacional
Isso implica na conclusão de que nada adiantou o engajamento de Romeu Zema nas redes sociais?
Claro que não. Mesmo que ele não tenha condições de vencer as eleições em 2026, diante do contexto político consolidado desde 2018, o mineiro, por meio de sua competente equipe de comunicação, estava em busca de projeção nacional. E deu um passo importante nesse sentido.
No campo da direita, ele ainda não ampliou seus votos, todavia já recebeu as boas-vindas. Por enquanto, é só.
E Renan Santos?
O pré-candidato do Missão é também potente nas redes sociais, principalmente entre os jovens. No mesmo IDP de abril, ele alcançou 21,19 pontos, pouco à frente de Zema. Mas pouco eficiente para fazer sua pré-candidatura decolar - tem apenas 2% das intenções de voto.
O parceiro do deputado federal Kim Kataguiri (Missão), embora seja do campo da direita, tenta se colocar como uma terceira via entre Lula e Flávio Bolsonaro, com a pretensão de se enquadrar na definição (de terceira via) de Norberto Bobbio: ser uma opção que não apenas repele os apostos, mas vai além.
No curioso caso do detergente Ypê, por exemplo, Renan fingiu que beberia sabão para, em seguida, sugerir "um papo reto" com seus seguidores."Não. Não vou fazer isso, galera. Não é nem que eu concordo ou não com a Anvisa, é que, em nome dessas brigas digitais, as pessoas tomam posições absolutamente malucas", disse, citando outros casos, como o das havaianas.
Renan, tão polêmico quanto todos os exagerados da internet, tenta se colocar com certa superioridade à direita e ativar direitistas que, teoricamente, jamais beberiam detergente. Mas, mesmo que de fato não bebam, evoco uma metáfora para me fazer entender: já compraram muitos frascos de Ypê, e não pretendem desperdiçar.
Conclusão
No fim das contas, a pergunta que move este debate talvez esteja mal formulada. Like não é voto, mas tampouco é irrelevante. Ele não decide 100% de uma eleição, mas ajuda a definir quem entra no jogo.
O que os casos de Romeu Zema e Renan Santos mostram é que engajamento digital funciona para projetar, posicionar, tensionar narrativas. Mas, sozinho, não rompe estruturas políticas já consolidadas, nem substitui identidade, lastro eleitoral e conexão real com o eleitor.
Entre o determinismo e o desprezo, é importante entender que, na política, like não é o suficiente, mas, sem ele, não dá nem chegar perto dos votos.