“A esquerda se afastou da base”(?)
O que, afinal de contas, significa esta afirmação amplamente difundida pelo próprio campo progressista? A esquerda abandonou a base?
É uma frase ouvida em muitas ocasiões. Ela brota em reuniões políticas e no boteco. Em eventos de marketing e nos artigos jornalísticos. A conclusão incômoda, mas engolida receptivamente como autocrítica, paira no ar de forma abstrata e genérica. Mas tem raízes absolutamente concretas.
Antes de tudo, aproximar-se da base não significa o empenho em atos isolados, como a participação em alguns eventos comunitários, uma visita esporádica à favela e, muito menos, um vídeo de Instagram com frases de efeito sugeridas por Inteligência Artificial (IA).
Tem que ir aonde o povo está, sim, como diz o genial Milton Nascimento, mas sem ego de artista e com disposição para transformar essas visitas em uma relação de parceria profunda, duradoura e emancipatória (logo abordaremos este último ponto).
Estes são ensinamentos de figuras históricas do campo progressista, como o frade dominicano Frei Betto, cuja parceria com Lula começou nas batalhas sindicais dos anos 1980 e, portanto, na luta contra a ditadura.
O teólogo e jornalista avaliou em entrevista para a TV 247 que a esquerda perdeu capacidade de congregação nas periferias, nas favelas e na zona rural - “com exceção do Movimento Sem Terra (MST), que ainda faz trabalho político”.
“À medida que fomos ocupando estruturas de poder, nós fomos abandonando as bases porque não há formação política, não há equipe de educação popular. Paulo Freire hoje, no máximo, fica nas estantes, e não na prática”, alerta.
Conexão pedagógica e religiosa
Frei Betto enfatiza esse aspecto porque teve êxito a relação entre Igreja Católica, movimentos sindical e popular e lideranças de esquerda com o propósito de formar - crítica e politicamente - militantes por meio da chamada educação popular. Esta, por sua vez, era (e ainda é) aplicada por meio do método Paulo Freire, difundido, por exemplo, pela obra-prima “Pedagogia do Oprimido”.
Freire eternizou um processo educativo que primeiro ouve, para depois compreender a melhor forma de orientar; que acredita fortemente na sabedoria das pessoas e tem o propósito revolucionário de desmascarar o sistema opressor excludente (capitalista, por óbvio), bem como libertar consciência crítica.
Portanto, uma formação não verticalizada, não impositiva, que abarca o aprendizado mútuo entre educador e educando, bem como uma caminhada lado a lado para, de acordo com Freire, combater o status quo opressor.
Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)
É o trabalho que acontecia nas famosas CEBs, onde fé e conscientização política caminhavam em sintonia. O professor de filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Maurício Abdalla explica no artigo “A verdadeira ‘nova política’ nasceu das CEBs” que “fé, vida e conscientização, por meio da educação popular, compuseram uma totalidade teórica e prática que trouxe uma novidade na política: a participação do povo”.
Esse universo foi fundamental para o fortalecimento da esquerda, formação e crescimento do Partido dos Trabalhadores (PT) e como um dos terrenos férteis que ajudaram a despontar Luiz Inácio Lula da Silva, cuja obstinação o transformou no maior líder político do país.
Abandonar a base é o enfraquecimento de tudo isso. Até porque dá trabalho. Exige compromisso, foco, presença, processo pedagógico e a luta contra o sistema predominante. O mesmo Frei Betto morou por cinco anos na capital Vitória, nos anos 1970, na Ilha de Santa Maria, para compartilhar a educação popular de forma contínua e dedicada.
Abdalla esclarece, desta vez no texto “Pobreza, tema esquecido pela esquerda?”, que esse enfraquecimento se deu nos anos 90, impulsionado por eventos como a queda da URSS e a prevalência norte-americana nos campos cultural e intelectual, fragmentando e confundindo o foco dessa “luta emancipatória contra a exploração”.
Continua: “Isso fez com que o campo teórico das lutas emancipatórias passasse a ser alimentado apenas pelas universidades, onde o mundo real, a prática social e as lutas reais parecem passar a quilômetros de distância e tudo se torna apenas conceito de livre manipulação teórica”.
Desconexão religiosa
Há que se destacar, como consequência do que analisamos, o visível afastamento da esquerda do universo religioso – seja ele qual for. O progressismo destes tempos resultou na busca contínua por uma manifestação política e cultural cool, modernosa e pretensiosa, num mundo onde “todas” as identidades visuais são felizes, coloridas e “artísticas”.
Talvez o universo aqui descrito tenha se tornado desinteressante. O Papa Francisco, por exemplo, revolucionou a Doutrina Social da Igreja, horizontalizando pela primeira vez a relação de um Pontífice com os movimentos populares; descendo do pedestal, encorajando as bases. Mas a esquerda pouco aproveitou, talvez porque o Papa não tenha se manifestado favoravelmente ao aborto.
A ausência da esquerda nas periferias por meio da educação popular pode ter cedido espaço para uma visão do Cristianismo mais individual do que coletiva. Progressistas atacam neopentecostais como fanáticos manipulados, mas os primeiros não estão mais nos territórios para mostrar por que eles são manipulados, e não fanáticos.
Marketing e política
Dito isso, Lula pode até ser tetra em 2026, mas o afastamento da base, como de novo afirma Frei Betto, pode comprometer o restante da estrutura: Congresso, estados.
Por outro lado, mesmo que haja a inescapável conclusão de que esse trabalho de base, comprometido e dedicado, deve ser retomado, há que se avançar em alguns aspectos.
Na “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire rejeita processos que tenham premissa estratégica e utilizem o recurso da sloganização para persuadir. Não é mais possível entrar numa guerra assim - e política é guerra. De todo modo, essa sloganização não vai funcionar se ela for entregue a um vazio.
O método Paulo Freire aponta contradições diversas da dialogicidade educador-educando, mas exige praticamente um celibato perfeccionista nessas relações humanas, o que pode gerar, em muitos casos, até uma postura arrogante de lideranças, como se estas tivessem alcançado um caráter inabalável. Sloganizar, portanto, torna-se oportunismo e falha ética.
Mas calma: é possível comunicar sem virar “The Boys”.
Por fim, registro com um trecho de “Pedagogia do Oprimido” em que Paulo Freire cita uma fala do pensador político brasileiro e um dos fundadores do PT Francisco Weffort:
“Toda política de esquerda se apoia nas massas populares e depende de sua consciência. Se vier a confundi-la, perderá as raízes, pairará no ar à espera da queda inevitável, ainda quando possa ter, como no caso brasileiro, a ilusão de fazer a revolução pelo simples giro à volta do poder e, esquecendo-se dos seus encontros com as massas para o esforço de organização, perdem-se num ‘diálogo’ impossível com as elites dominadoras”.